Bem, pode ser que você e eu não sejamos ricos nem assim tão religiosos, ou tão cumpridores da lei divina, mas ainda assim aquele moço pode ser um legítimo representante da classe de pessoas a que pertencemos: a dos que acreditam que devem fazer algo para se salvar.
A revista Piauí de março publicou um interessante artigo sobre um sujeito que vive na Espanha e que tem uma curiosa profissão: pagador de promessas. Basicamente seu papel é o seguinte: se você fez uma promessa a algum santo - como peregrinar pelo caminho de São Tiago de Compostela, ou até o santuário de Fátima, por exemplo - e não pode pagar por alguma razão, contrate-o. Por alguns milhares de euros ele paga a promessa por você. A revista diz que ele vive muito bem, obrigado, clientes não faltam.
No fundo, todos queremos uma religião assim, em que tenhamos que fazer umas coisas, deixar de fazer outras, cumprir alguns ritos e pronto: estar livres e de consciência tranqüila para seguir nossa vida. A idéia é tão arraigada que alguns tranqüilizam a consciência se simplesmente fizerem que alguém cumpra os tais ritos em seu lugar. Estão todos comprando sua salvação, se não pelo dinheiro, por suas boas obras.
Expressões desse equívoco estão por toda parte, desde os católicos que fazem promessas, até os pentecostais que pagam para poder tocar no manto que será levado a Jerusalém, que colocam copos de água sobre o televisor ou que medem o tamanho dos cabelos das mulheres, os espíritas que pretendem depurar-se através de caridade, passando pelos evangélicos que têm listas de "pode e não pode" aos sábados ou domingos ou que confiam no poder salvador de seu dízimo e de sua freqüência aos cultos.
Mas a Bíblia é bastante clara: as pessoas da classe do jovem rico serão decepcionadas pela eficácia final de suas boas obras. Elas não servem para nada. Nossa salvação não depende do que fazemos ou deixamos de fazer, mas de com quem nos relacionamos e a quem entregamos a condução de nossas vidas. Nossa justificação vem pela fé e a fé nasce do relacionamento com Jesus Cristo. Apenas a partir desse ponto as boas obras que começamos a fazer por impulso, sem nem perceber, é que valem.
Para fugir dessa classe iludida, precisamos mudar a pergunta. Em lugar de "o que devo fazer para ser salvo?", perguntar: "Senhor Jesus, o Senhor vai me ajudar a passar este dia contigo?"
Marco Aurelio Brasil, 06/04/07
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