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09 julho 2008

Os ouvidos moucos

De: Marco Aurelio Brasil Lima

Existem alguns trechos dos Evangelhos que sempre que eu lia tinha vontade de rir. Olha só Marcos 9:31 em diante: "[Jesus] ensinava a seus discípulos, e dizia: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, que o matarão; e morto ele, depois de três dias ressurgirá. Mas eles não entendiam essa palavra... Chegaram a Cafarnaum. E, estando ele em casa, perguntou-lhes: Que estáveis discutindo pelo caminho? Mas eles se calaram, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles era o maior". Ou então Lucas 18:31-34: "Tomando Jesus consigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito, pois será entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido; e depois de o açoitarem, o matarão; e ao terceiro dia ressurgirá. Mas eles não entenderam nada disso; essas palavras lhes eram obscuras, e não percebiam o que se lhes dizia".

Não é engraçado? Jesus chega para eles e, em muito bom aramaico, afirma que "o Filho do Homem"- e todo mundo ali sabia que Ele estava falando dEle mesmo - ia ser morto de forma sofrida e depois ressuscitaria. O que você faz quando ouve seu mestre dizer coisas assim? Bem, só que eu imagino os discípulos ouvindo sorridentes, meneando a cabeça como quem concorda, fazendo sinal de "ok" e, na seqüência, deixando Jesus andar mais à frente para discutir quem vai ser o ministro do que no reino de Jesus. Num outro relato, em Mateus, o evangelho posiciona o pedido da mãe de Tiago e João para serem eles os bambambans do reino imediatamente após Jesus noticiar que seria morto. Parece que se Jesus houvesse dito alguma coisa completamente sem sentido eles teriam recebido da mesma forma, como se Ele estivesse falando em parábolas, daquelas bem difíceis de entender.

Eu dava muitas risadas desses discípulos incapazes de entender uma linguagem direta e sem qualquer simbolismo oculto; gente que só ouvia o que queria ouvir (antes da mama de Tiago e João chegar com aquele pedido, Jesus havia dito que Ele se assentaria à destra de Deus e haveria doze tronos ali para que eles reinassem com Ele), mas minha hilaridade terminou quando percebi que eu também só captava dos ensinos radicais de Jesus o que eu queria captar, o que me era conveniente. Aquela história de bem aventurados os perdedores, de é melhor dar que receber e de oferecer a outra face, ou então aquele ensino sobre negar-se a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo. São pequenos exemplos de coisas que eu leio como se tivessem uma tonelada de palavras para "explicar o que Jesus realmente quis dizer". Invariavelmente, essa tonelada de palavras me justificativa a continuar achando que minha vida não precisava de reforma alguma, que eu podia tocar a vida centrada em mim mesmo e na visão de que logo logo estarei assentado num trono ao lado dEle.

Chega de ouvir apenas o que eu quero ouvir.

Feliz sábado, @migos!

Marco Aurélio Brasil - 20/06/08

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